quinta-feira, março 10, 2005

Curiosidades linguísticas da Bahia

Nesta viagem à Bahia aprendi qual o origem de algumas expressões que utilizamos quotidianamente:

"Feito em cima da coxa" - Aquando da visita à casa de Garcia D'Ávila na Praia do Forte (que vai merecer um post nos próximos dias) o guia explicou-nos de onde vinha esta expressão. A curvatura das telhas da casa era dada pelas coxas dos escravos. As telhas eram produzidas com argila quente, a qual era depois colocada a secar sobre as coxas dos escravos, ganhando assim a sua forma final (trabalho agradável, eihn?...). Como os escravos tinham pernas de tamanhos diferentes obviamente as telhas saiam cada uma com seu tamanho e feitio. Daqui vem então a expressaão "feito em cima da coxa" para referir algo feito com pouco cuidado ou precisão.

"Sem eira nem beira" - Percorrendo a zona histórica de Salvador foi-me explicado o significado da quantidade de janelas e dos beirais de telhado nas fachadas destas casas do Brasil colonial. Quanto maiores eram as posses e a posição social da família, mais trabalhado era o beiral e respectivas beiras que ostentavam as suas casas. Depois havia ainda as casas que não tendo beirais ainda possuíam uma pequena eira para o cultivo. Na base desta estratificação social estavam aqueles que não tinham beiras nas casas nem tão pouco uma eira para cultivar.

quarta-feira, março 09, 2005

Turismo

De mongos para mongos...

A foca bébé do Ártico é dos animais mais desprotegidos que existem à face da Terra. É demasiado lenta para fugir aos predadores e não tem ainda pêlo suficiente para aguentar as temperaturas gélidas da água.

Este ano o governo norueguês, por intermédio de seu ministro das pescas, teve a ideia genial(!) de promover uma nova forma de turismo: pacotes de alguns dias para matar focas! Por meia dúzia de patacos o turista tem direito a matar umas focas bébé e tirar fotos com a temível presa ensanguentada a seu lado...

Ora eu gostava de saber como é possível alguém num país dito civilizado ter uma ideia destas?!? E como é possível que alguém alinhe neste 'turismo'?... Não tenho nada contra a caça ou pesca desportivas (ainda que não goste de as praticar), mas andar a caçar focas bébé vai para lá de tudo o que a minha inteligência permite compreender!

Tentando ser civilizado, em vez de mandar o governo noruguês à merda, vou antes transcrever uma passagem do livro "O Reino do Dragão de Ouro" de Isabel Allende: “O respeito por qualquer forma de vida, fundamento do budismo, era o lema de ambos. Achavam que qualquer criatura poderia ter sido sua mãe numa vida anterior. Por isso deviam tratá-las com toda a bondade. De qualquer forma, como dizia o lama, o importante não é aquilo em que se acredita ou não, mas aquilo que se faz.”

Não é que eu seja budista ou tenho deixado de ser europeu, agora pudesse eu construir a Europa como quem constrói lego ... e trocava de bom grado a Noruega pelo Butão, isso trocava!...

terça-feira, março 08, 2005

Iemanjá


Na sequência do dia da mulher, ainda meio inebriado pelo candomblé e fazendo juz ao nome do blog, não podia deixar de evocar Iemanjá.

Iemanjá, cujo nome deriva de Yèyé omo ejá ("Mãe cujos filhos são peixes"). Sincretização de Nossa senhora da Conceição. Inaê, Mucunã, Janaína. A mãe de todos os orixás. A protectora dos pescadores. A deusa do amor. A rainha das águas.

A Mulher.

Dia da Mulher

segunda-feira, março 07, 2005

Mo Cuishle


Este fim de semana fui ver o filme Million Dollar Baby de Clint Eastwood. É um filme muito bom. Muito forte, mas muito bom. Mereceu todos os óscares que ganhou. A não perder. Mesmo!

Não sendo o mais importante do filme ajudou-me também a perceber porque não consigo apreciar o boxe...

Mas não vou comentar mais porque o melhor é mesmo ver o filme.

Candomblé

Uma sensação que se tem na Bahia é a proximidade com África. Esta influência está bem patente ainda hoje na quantidade de mulatos e mulatas (creio que mais de 80% da população) que vemos nas ruas, na música, no artesanato com as suas estatuetas de madeira e na mitologia .
O Candomblé é a expressão máxima desta mitologia africana, onde existe um deus supremo (Olodumaré) que criou os orixás (deuses) para governarem e supervisionarem o mundo. O orixá é uma força pura e imaterial, a qual só se torna perceptível aos seres humanos manifestando-se num deles. É engraçado também verificar a forma como a mitologia africana interage com o catolicismo (cada orixá negro tem um correspondente num santo católico).
Verifiquei que a Bahia é muito isto: um misto de influências africanas e europeias, patentes, por um lado, nestas expressões culturais africanas e, por outro lado, na enorme quantidade de igrejas que se espalham por Salvador. Os colonizadores portugueses reprimiram o culto aos orixás, porque o viam como feitiçaria. Os escravos africanos fizeram então a associação dos orixás com os santos católicos, formando o sincretismo religioso de hoje.

Penso que para perceber a Bahia é preciso entender como estas influências se misturam e são vividas.

Antes de ir de viagem comprei um livro de Jorge Amado - Jubiabá - não só pela qualidade de escritor de Jorge Amado mas também como guia histórico-turístico da Bahia. O livro descreve na perfeição a vida difícil dos negros de Salvador no início do século passado. E as suas crenças e mitologias.

Jorge Amado, no capítulo Macumba de seu livro “Jubiabá”, relata uma festa na casa do pai-de-santo Jubiabá:

“Na sala estavam todos enlouquecidos e dançavam todos ao som dos atabaques, agogôs, chocalhos, cabaças. E os santos dançavam também ao som da velha música da África, dançavam todos os quatro, entre as feitas, ao redor dos ogãs. E eram Oxóssi, o deus da caça, Xangô, o deus do raio e do trovão, Omulu, o deus da bexiga, e Oxalá, o maior de todos, que se espojava no chão.

No altar católico que estava num canto da sala, Oxóssi era São Jorge; Xangô, São Jerônimo; Omulu, São Roque, e Oxalá, o Senhor do Bonfim - que é o mais milagroso dos santos da cidade negra da Bahia de Todos os Santos e do pai-de-santo Jubiabá. É o que tem a festa mais bonita, pois a sua festa é toda como se fosse candomblé ou macumba”.

Esclarece Jorge Amado: na porta da casa do pai-de-santo Jubiabá, negras vendiam acarajé e abará; antes da festa, fizeram o despacho de Exu, o qual foi perturbar outras festas mais longe.

quinta-feira, março 03, 2005

De volta ao velho mundo...

Pois é, tudo o que é bom acaba depressa!

Foram quinze dias beleza!, com assunto que não cabe num só post. Tenho posts para os próximos dias. Ainda me faltam é as fotos que ainda não passei dos cartões e o tempo para escrever.

Hoje lanço apenas os assuntos a desenvolver nos próximos posts (escrevo-os já tb para não me esquecer deles pq a idade já não perdoa! :o) ):

Geralmente quando chego ao Aeroporto da Portela, costumo sentir uma alegria interior de regresso a casa. Desta vez isso não aconteceu. Porquê? Porque não queria regressar já? Porque no Brasil estava em casa? Devido ao cansaço da viagem? (Saí na manhã de 3ªf. do Morro de São Paulo e só cheguei na 4ªf. a Portugal!...) Porque Portugal mudou nestes 15 dias?...

O Ecoresort da Praia do Forte. Porque gostei tanto. E do Sauípe porque nem por isso.

O projecto TAMAR de recuperação de tartarugas.

A barreira linguística. Parece ridículo mas é verdade: muitas vezes me responderam em castelhano...

As praias. Tipo polinésia como dizem os folhetos turísticos? Na. Longe disso.

O ambiente cosmopolita e meio hippie do Morro de São Paulo. E a tatuagem.

O mergulho nos corais do Morro. E as apneias.

A cidade de São Salvador. O centro histórico, a falta de planeamento urbanístico, a sombra de ACM, as favelas, as (pelo menos aparentes) segurança e limpeza, ...

A História. Sempre fascinante, ainda mais quando a da Bahia e de Portugal se fundem na mesma (obviamente!).

E perguntas mais ou menos banais: como se acendia uma fogueira no século XVI? Porque se mede a velocidade dos barcos em nós? Quem efectivamente descobriu o Brasil? O que é o Axê? Porque é que viagens com a Air Luxor são viagens com emoção?...

...

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Avisa lá que eu vou...



Pois é ... chegada a hora da partida!

O blog não deve ter grande animação nos próximos quinze dias uma vez que a minhas experiências para blogar por 'e-mail via SMS' não resultaram... Assim também o blog ficará de férias.


No entretanto, se tiverem tempo para navegar, vão até ao site da Bahia, passem pela Costa dos Coqueiros, vão de Lauro Freitas a Mangue Seco (lembram-se das dunas de Tieta?), parem um pouco no Morro de São Paulo, na Costa do Sauípe e na Praia do Forte.


Quem estiver interessado num guia de viagens sobre o nordeste brasileiro, com opinião descomprometida, então o negócio é o Freire's.

Fiquem bem!

Major Tom to Ground Control...

"O controlador aéreo que apoiou a aterragem do Airbus que em 2001 ficou sem combustível ao largo dos Açores vai ser distinguido hoje com um prémio norte-americano, durante a gala dos 95 anos do Aero Clube de Portugal. É a primeira vez que o primeiro-sargento da Força Aérea Portuguesa (FAP) José Ramos, de 43 anos, vê reconhecido publicamente em Portugal o seu apoio ao comandante na aterragem de emergência na Base das Lajes do Airbus A330, voo TSC 236 da Air Transat, com 301 pessoas a bordo. "Limitei-me a fazer o meu trabalho", disse ontem à Agência Lusa o controlador aéreo ao serviço da FAP há 23 anos que vai receber o galardão ISS Safety Award, uma distinção que premeia a prevenção, auxílio e socorro e é, pela primeira vez, atribuída em termos individuais." in DN 04.02.05

No dia 24 de Agosto de 2001 o senhor José Ramos da FAP (JR para facilitar a escrita) estava de serviço na Base das lages quando recebeu um pedido de ajuda do controlo aéreo de Santa Maria. Este avião proveniente do Canadá voando em direcção a Lisboa, com 300 passageiros a bordo, aproximava-se da ilha Terceira e acabava de perder ambos os motores por falta de combustível.

Na comunicação inicial das Lages com o avião, a primeira coisa que o comandante lhe disse foi: 'Vou amarar!'... JR pediu calma ao comandante do avião e disse-lhe que o ía trazer para perto da ilha para facilitar as operações de salvamento. Accionou de seguida os mecanismos de socorro como mandam as regras.
Percebeu na conversa com o comandante que a aeronave lhe estava a fornecer indicações erradas. Assim, confiando apenas na informação do radar das Lages determinou a posição e velocidade correctas do avião, confirmou os cálculos (um erro de cálculo de uma ou duas milhas podia fazer despenhar o avião antes da pista, sobre a cidade de Praia da Vitória!) e tomou a decisão de trazer o avião até à pista. Orientou o comandante da aeronave e conseguiu fazer com que o avião aterrasse com todos os passageiros a salvo.

E até que enfim, passados quatro anos, surge o reconhecimento público! É que, na minha opinião, isto foi um trabalho muito bem feito merecedor do nosso reconhecimento e aplauso (que o digam os 300 passageiros do Airbus ... e os habitantes de Praia da Vitória!). Importante também porque um país que não reconhece o mérito acaba por cultivar a mediocridade!...

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

A Bahia de todos os santos

Tentando perceber a Bahia e o que devo esperar lá encontrar, fui à procura das palavras de quem provavelmente melhor a personificou e explicou. Encontrei os seguintes trechos de uma entrevista a Jorge Amado:

«Só escrevo sobre aquilo que conheço intimamente, que conduzo dentro de mim, no meu sangue e no meu coração; não escrevo por ouvir dizer ou sobre coisas apenas aprendidas. E a minha obra, sendo brasileira, é fundamentalmente baiana, pois a Bahia é meu chão, meu universo humano, minha própria realidade»

«Sou materialista, não possuo nenhum sentimento religioso (o que não me impede de ser supersticioso como todo baiano). Sou obé (Obá Otun Arolu), um dos doze obás da Bahia, escolhido por Xangô e pelo povo dos candomblés através do jogo feito pela venerável Mãe Senhora, já falecida. Creio que devo essa honraria imensa a ter lutado ao lado do povo contra a falta de liberdade religiosa, a brutal perseguição às religiões afro-brasileiras, luta que sustentei na Bahia desde minha juventude e que levei até à Assembleia Constituinte de 1946, para a qual fora eleito deputado. Ao aceitar o título de Obá, e outros que me foram dados antes, comprometi-me a respeitar as diversas (em geral belíssimas) obrigações do culto. Quando estou numa casa de candomblé, comporto-me como o obá que sou. Meu materialismo – já disse Pedro Archanjo em «Tenda dos Milagres» – não me limita.»

«O que sobra na Bahia é boniteza de praia, é mar e sol, areia e azul.» (Desta também gostei! :oD )

E ainda estas palavras do entrevistador:
'Salvador da Bahia foi, como se sabe, a primeira capital do Brasil. Foi aí que primeiro chegaram os portugueses, e em nenhum local como nessa admirável cidade um português se sente em casa, fora das fronteiras da sua pátria. Em nenhum local, também, como na Bahia, se produziu uma mais completa miscigenação de raças, Em Salvador são os mulatos que predominam – e lhe dão mais carácter. Os mulatos, e, claro, as mulatas – algumas de uma beleza espantosa!' (Só uma nota minha: os portugueses estabeleceram-se primeiro em Salvador, mas foi um pouco mais abaixo, em Porto Seguro, que pela primeira vez avistaram terras de Vera Cruz.)


Vou pois com a expectativa de encontrar na Bahia a mistura de culturas afro-euro-sul-americanas, nas suas vertentes culturais, sociais, arquitectónicas ou gastronómicas. Tentar perceber esse misticismo da cultura dos Orixás. E o Axê. Que é afinal o Axê? Apenas um género musical? Não creio. Vou ver.
E vou obviamente com a expectativa se sentir na pele o calor do sol da Bahia, mergulhar nas suas águas quentes, fazer um windsurf, kayak, uns passeios a cavalo, de buggy, empaturrar-me de peixe grelhado e caipirinhas ... e tudo o mais que couber no tempo (e no dinheiro...) que levar!